De antigo hospital-colônia a referência estadual em atendimento especializado pelo SUS, instituição localizada em Piraquara celebra um século de história com ampliação dos serviços, investimentos e modernização da estrutura.
O Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná, conhecido historicamente como Hospital São Roque, completou 100 anos nesta semana, no dia 20 de outubro. Localizado em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, a instituição passou por profundas transformações ao longo de sua trajetória e hoje é referência estadual em dermatologia, hanseníase, cirurgia vascular e tratamento de feridas complexas.
Um dos principais indicadores dessa transformação está no volume de atendimentos. Em 2021, o hospital realizou 25.889 atendimentos. Em 2025, o número chegou a 167.051, um crescimento de aproximadamente 545%. Entre janeiro e setembro de 2026, foram registrados outros 118.924 atendimentos. Desde 2021, a unidade já ultrapassou 673 mil atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, são cerca de 500 atendimentos por dia, entre consultas, curativos e procedimentos especializados, beneficiando pacientes de 45 municípios paranaenses.
Modernização e ampliação dos serviços
A partir de 2020, o hospital iniciou um processo de reestruturação que modificou seu perfil assistencial, com a consolidação do atendimento ambulatorial e a ampliação das especialidades oferecidas à população.
Sob a direção-geral de Maristela Zanella, a instituição acompanha esse processo de expansão, que envolve melhorias na estrutura física, aquisição de equipamentos e ampliação da capacidade de atendimento. O trabalho é desenvolvido no âmbito da rede estadual de saúde, com gestão da Fundação Estatal de Atenção em Saúde (FUNEAS) e manutenção pelo Governo do Paraná.
O projeto de modernização prevê investimento superior a R$ 42 milhões em reformas e adequações. A estrutura deverá passar de 28 para 54 consultórios e contará com centro de diagnóstico, centro cirúrgico com duas salas, 12 leitos de hospital-dia e serviço de oxigenoterapia hiperbárica, utilizado no tratamento de determinadas feridas complexas.
Entre os serviços já oferecidos estão consultas especializadas em dermatologia e hanseníase, atendimento vascular, cardiologia, pequenos procedimentos cirúrgicos, biópsias e acompanhamento multiprofissional. A unidade também se destaca pelo ambulatório de feridas, com atendimento especializado em lesões agudas e crônicas e utilização de coberturas especiais.
Além da assistência, o hospital passou a atuar na formação de profissionais de saúde. Desde 2023, oferece residência médica em dermatologia e em 2026 a implantação do Programa de Residência de Enfermagem em Dermatologia Sanitária, contribuindo, assim, para a qualificação de especialistas e o fortalecimento do atendimento pelo SUS.
De hospital-colônia a referência em saúde pública
Fundado em 20 de outubro de 1926, o Hospital São Roque foi criado em um período em que a hanseníase, então conhecida como “lepra”, era enfrentada por meio de políticas de isolamento compulsório. Pessoas diagnosticadas com a doença eram afastadas do convívio familiar e encaminhadas para instituições como o São Roque, que chegou a abrigar cerca de 1.300 pacientes.
O complexo funcionava como uma pequena cidade, com igreja, cinema, áreas residenciais, comércio e outros serviços. Para muitos pacientes, o hospital se tornou moradia por anos ou décadas, em uma realidade marcada pelo afastamento social e pelo preconceito.
Com a evolução do conhecimento científico e das políticas de saúde, o isolamento compulsório foi abolido. Em 1983, a instituição deixou de funcionar como hospital-colônia e passou a se chamar Hospital de Dermatologia São Roque. Em 1990, recebeu a denominação de Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná.
A mudança representou uma transformação não apenas na estrutura de atendimento, mas também na forma de compreender a doença e cuidar das pessoas. Atualmente, a hanseníase tem tratamento e cura, disponíveis gratuitamente pelo SUS, e o trabalho de conscientização é fundamental para combater o estigma e favorecer o diagnóstico precoce.
Memória preservada em Piraquara
Parte dessa história é preservada pelo Museu São Roque (MUSAR), inaugurado em 16 de março de 2022, em um dos prédios históricos do complexo hospitalar. O espaço reúne documentos, fotografias e objetos que ajudam a resgatar a trajetória do hospital e a memória das pessoas que viveram no local.
O museu contribui para manter viva a memória dos antigos pacientes e dar visibilidade a um período marcado pelo isolamento compulsório e pelo preconceito contra pessoas com hanseníase. A iniciativa também permite que moradores e visitantes conheçam um capítulo importante da história de Piraquara, diretamente ligado à evolução da saúde pública no Paraná.
Além do Hospital de Dermatologia Sanitária, Piraquara abriga o Centro de Produção e Pesquisa de Imunobiológicos (CPPI), instituição estadual dedicada à pesquisa e à produção de imunobiológicos, incluindo soros antivenenos. Embora sejam unidades distintas, ambas integram a presença histórica e atual de estruturas importantes para a saúde pública no município.
Um século de história que se conecta a Piraquara
Ao completar 100 anos, o Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná reúne diferentes capítulos da história da saúde pública brasileira: desde o período de isolamento compulsório de pessoas com hanseníase até a consolidação de um serviço especializado, voltado ao atendimento, à reabilitação e à formação de profissionais.
Essa trajetória também se entrelaça com a história de Piraquara. Ao longo das décadas, o Hospital São Roque marcou a paisagem, a memória e a vida de muitas pessoas no município. Hoje, a preservação dessa história pelo Museu São Roque (MUSAR), junto à modernização dos serviços de saúde, mantém vivo esse legado e permite compreender as transformações sociais e sanitárias que marcaram o último século.
Um século depois de sua fundação, o hospital segue em atividade, atendendo pacientes de diversas regiões do Paraná e fazendo parte da história de Piraquara.