PIRAQUARA um longo apito entre os eucaliptos largamos a bola negro na névoa surge o trem cinquenta, sessenta, setenta vagões sacodem as pedras sacodem as portas sacodem os ossos dos cães sarnentos da cidade sonolenta eu e você nos olhamos rapidamente esquecidos de zombar as coisas graves do comércio do mundo zunem sobre rodas: cimento soja óleo calcáreo homens-máquina que não param pra saudar meninos e bêbados como o Emilio Rita (ai! o Emilio Rita, que vergonha do Emilio Rita quando o trem passa) e lá se vai, e lá se foi e não nos levou o trem nunca para em piraquara... quarenta anos depois o dilema metálico se estende em um poema - lembra como a composição impunha o tempo, lançava a distância? lembra do eco em teu olhar? o menino é a hora o menino é o túnel desse trem que apita homem adentro, vida afora... Marcos Pamplona